O deserto implacável onde reina Seth, da cabeça de asno, e o delta nutritivo, terra de Hórus da cabeça de falcão, se opuseram desde a origem do Egito, dando nascimento a uma dualidade metafísica que a incompreensão dos homens fixou tardiamente em um dualismo teológico. Mais que qualquer outra, portanto, a civilização egípcia, nas antípodas das esquematizações garantidoras, foi fundada de maneira quase sacrificial sobre a antinomia e a tensão dialética.
E Set, relegado na baixa época ao nível de «deus maldito», encarnava em realidade o aspecto destruidor do Princípio. Indispensável sacrificador das aparências e das religiões obsoletas, vivificou uma tradição secreta — encarnada simbolicamente por seus 72 companheiros que bem além da terra vermelha do deserto egípcio e da glória guerreira dos Ramsés e dos Sethi, atravessou subterraneamente nossa história. Ela constitui mesmo um dos aspectos mais interiores e dos mais “inconfessáveis”do judeu-cristianismo.
Na hora em que as iniciações reputadas tradicionais do Oriente e do Ocidente manifestam cruelmente sua caducidade, Seth e os «72», além do Bem e do Mal, nos oferecem a última chave...
Resumo
O Egito Antigo, mãe dos deuses
O grego Heródoto considerava os egípcios como “os mais extraordinariamente religiosos de todos os homens”. Egito o lufar da hierogamias primordiais. O Egito é a mãe dos deuses.
A estrutura geográfica do Egito reflete a sua função sacerdotal: o alto Egito, terra dos grandes mistérios simbolizada pela coroa branca, e o baixo Egito, terra dos pequenos mistérios, simbolizada pela coroa vermelha, se reúnem fisicamente pelo Nilo, e metafisicamente pelo faraó, o mediador, o árbitro sagrado. Tal é o “Duplo País”, microcosmo onde se encontra o universo inteiro e onde tudo, para nós, começa.
A princípio o deserto implacável onde Ra, o Sol, engendra cada manhã o universo ilusório das formas que dissolve cada anoitecer em um chamejante incêndio. Terra do Espírito destruidor das aparências, sobre o qual nos tempos antes da história, reinou Seth o Vermelho, com a cabeça de asno, deus da violência e do trovão, assassino ou melhor sacrificador de seu irmão Osíris. Maléfico? Não. A incompreensão dos homens, na qual pesou o antropomorfismo grego, obscureceu sua glória solar e xivaíta. Ele é o deus da grande bravura, em pé na barca de Ra, ferindo com sua lança a horrível serpente Apopis.
Em seguida ao deserto, reino de Seth vem o Delta nutrificante, matricial, terra de Hórus da cabeça de falcão, filho de Ísis e de Osíris e vingador de seu pai. Os egípcios, mestres da geografia sagrada, faziam corresponder aos 7 planetas os 7 braços do delta do Nilo, desaguando no Oceano primordial de onde nasceram as formas. Olimpiodoro assinala que a natureza “é um grande mito na medida que manifesta exteriormente, no plano sensível, os princípios e as forças do mundo inteligível”. Os primeiros mapas egípcios do Império Médio só se interessavam pela geografia do Além, só mais tarde atentando para uma representação mais prática.
No curso do quarto milenário, dois reinos já se formam. Um setentrional, sobre o qual velava Horus e cuja capital foi Behoudit do Norte. Outro meridional adorava Seth em Ombos, hoje Kom Belal. O norte conquistou o sul e impôs Horus. Este conflito representava o eterno combate entre a Ordem e o Caos, encarnadas em Horus e Seth. O entronamento do rei testemunha: Seth e Horus reconciliados lhe concedem a dupla coroa.
A exemplo do Nilo que atravessa e une as duas partes do Egito, no começo do mundo era o Noun. Ele cerca a terra e separa as águas superiores e as águas inferiores, estendendo-se do céu ao mundo subterrâneo. Sobre sua maré navega a barca do Sol durante o dia, e é graças a ele que a noite o astro enfraquecido recupera suas forças, e volta a raiar como pela primeira vez.
Jean Robin prossegue nesta linha de apresentação do Egito antigo e de seus simbolismo, destacando uma série de considerações sobre o faraó e seu papel fundamental nesta tradição. Sua descrição do entronamento, coroação e função do faraó são muito detalhadas, enfatizando aspectos iniciáticos.
Algumas informações relevantes se seguem a esta breve apresentação do Egito Antigo:
- Asmodeu, o diabo (que guarda a igreja de Rennes-le-Château) foi dado como o fruto da união incestuosa de Tubalcaïn e de sua irmã Naamah ou Noema. Em outro termos é o resultado de uma hierogamia entre o ancestral de todos os ferreiros e a ancestral da arte da tecelagem, mais precisamente ainda entre a iniciação maçônica masculina e a iniciação feminina.
- Uma tradição árabe da Grande Pirâmide seria que esta é o túmulo de Seyidna Idris, quer dizer Enoque, o que seria absurdo dado que outra tradição considera que Enoque foi elevado vivo aos céus. Como poderia ter um túmulo? O que teria sido enterrado na Pirâmide não seria seu corpo mas sua ciência René Guénon.
- Outra tradição atribui a construção das Pirâmides ao rei ante-diluviano Surid , atlanta, que advertido em sonho do dilúvio as fez edificar segundo os planos dos Sábios e ordenou aos sacerdotes que aí depositassem os segredos de suas ciências e os preceitos de sua sabedoria.
- Na versão copta da lenda das Pirâmides elas são atribuídas aos gigantes Shedid e Sheddad, filhos de Ad. Trata-se de fato de Adad ou Hadad, deus do trovão dos assiro-babilônicos e sumérios, ligado à Baal e a Seth. A segunda pirâmide seria então o túmulo de Enoque, nada mais do que Seth...
- Tebas, a cidade de Amon
- As metamorfoses de Set
- O Tesouro de Adão
- Aquele que deve vir
- A Mulher Escarlate
- O verdadeiro Apocalipse
- A Pedra e a Serpente
- O segredo do Monte Alarico
- O Tosão de Ouro
- A mensagem da Esfinge
- A pedra angular
- E sobre esta pedra...